A Torre de Babel não foi apenas uma construção; foi um projeto deliberado de poder. Movidos pela soberba, homens decidiram erguer uma estrutura que simbolizava centralização, controle e autossuficiência — uma ordem construída à margem de princípios superiores e limites morais.
A orientação era clara: espalhar-se e povoar a Terra. A escolha foi outra: concentrar forças, unificar discursos e consolidar domínio. A resposta veio na forma de confusão. A ruptura da comunicação impediu que a ambição coletiva avançasse sem freios. A semelhança é inquietantemente atual.
Falamos o mesmo idioma, contudo, o Brasil atravessa um período de ruído institucional. Normas se acumulam, interpretações se contradizem e a previsibilidade do Direito se enfraquece. A insegurança jurídica deixou de ser percepção isolada e tornou-se fator estrutural. O resultado é retração de investimentos, crédito restritivo e desconfiança crescente.
O país encerrou 2025 e iniciou 2026 com mais de 73 milhões de inadimplentes — cerca de 44% da população adulta. Juros elevados, inflação persistente e renda pressionada comprimem famílias e empresas. O risco aumenta, o capital recua e o crescimento projetado torna-se insuficiente para responder às demandas sociais. A crise, entretanto, é mais profunda do que os indicadores revelam.
Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, raramente se observou tamanho tensionamento entre os Três Poderes. A ampliação de protagonismos institucionais, decisões de forte impacto político e a fragilidade do diálogo republicano alimentam a percepção de desequilíbrio. Quando os limites se tornam elásticos, a estabilidade deixa de ser garantida.
A polarização ideológica substitui o debate técnico. A desinformação corrói a confiança. Mudanças sociais aceleradas ocorrem sem o necessário amadurecimento institucional. Ao mesmo tempo, a sensação de impunidade e a incapacidade estrutural de resposta penal reforçam o distanciamento entre Estado e sociedade.
Babel ensina que unidade sem fundamento ético não produz grandeza, produz dispersão. Estruturas podem ser imponentes, entretanto, se carecem de limites claros, tornam-se frágeis.
O Brasil não sofre por falta de capacidade; sofre pela erosão gradual da previsibilidade, da responsabilidade fiscal e do equilíbrio institucional.
É tempo de restaurar referências, reafirmar limites constitucionais e exigir maturidade dos que exercem poder. Não há estabilidade possível quando cada ator institucional redefine, a seu modo, as regras do jogo.
Torres erguidas sobre vaidade e voluntarismo não resistem. A história é clara — e implacável. Época de transformar nosso Brasil, antes que Deus o faça, de forma impiedosa.
Vitor Augusto Koch
Presidente da FCCS-RS



